Adição ao Perfeccionismo e a Desconexão da Alma

Esta semana as minhas reflexões são sobre aquela que acho ser uma das grandes patologias dos nossos dias, a adição ao perfeccionismo. Um problema do mundo moderno, que é instigado por todos nós, pela educação, pelos media, pelas redes sociais, e por aí fora. Um problema que na minha perspectiva revela uma grande desconexão com a alma, uma grande falta de confiança na vida e uma grande falta de amor próprio.

O Apego ao Verão Interior

A adição ao perfeccionismo, poderá ser entendida como uma tentativa vã de ficarmos eternamente no Verão (poderás ler o artigo sobre a psicologia do Verão aqui). Eternamente no êxtase, no prazer, na abundância. Esta tentativa maníaca de Verão eterno, é o que faz andar a roda do consumismo capitalista desenfreado que está a destruir o planeta. É a seca interior. Pois onde não há água, não há vida. Não há emoção, não há alma.

Conheço tantas pessoas que estão secas. Sem vida interna, sem emoção. Há tanto tempo que se perderam delas próprias, da sua alma, que ficaram secas. Outras tantas há que o seu corpo-alma grita por atenção. São diagnosticadas com síndromes e transtornos de ansiedade, ou depressões. São tratadas e acompanhadas segundo o rótulo, quando na verdade aquilo de que necessitam é de um acompanhante da alma, que os facilite na re-conexão, e os ajude a dar sentido ao que estão a viver.

O mito do Patriarcado

Ao contrário daquilo que se vende, a vida não é preto ou branco. “Se te portares bem, o universo recompensa-te como se fosse o pai natal” ou “se fizeres tudo como manda a lei, nada de mal te acontecerá”. É neste condicionalismo de causa – efeito que somos educados. Mas a verdade é que a vida não acontece assim, e a prova disso é que “coisas más” acontecem a “boas pessoas”.

“Lutar pela perfeição é matar o amor, porque a perfeição não reconhece a humanidade”

Marion Woodman

A verdade da vida é que ela é tudo, e inevitavelmente um dia ela vai despir-te ao nada. Ela é o paradoxo. Ela é a paisagem harmoniosa e a tempestade. É a destruição e a criação. Dia e noite. Luz e sombra. Ela é um círculo, uma espiral sem fim. Mas o Homem quer controlar. Quer controlar o incontrolável, a incerteza da vida, a dor, a morte, o luto, a sombra. A própria vida.

A Problemática do Controlo.

Este medo da vida, da incerteza do resultado. O medo de sentir, leva-nos a criar muitas estórias. A mente é macaca e inventa muitos rótulos, estórias, vestes falsas, com o intuito de nos fazer sentir bem, especiais, e acima de tudo de fugir. De fugir à realidade da vida. Fugir a ter de lidar com o medo, com a insegurança, com a solidão, com a ferida profunda da separação. Diz-nos que “se eu ler só mais aquele livro ficarei a saber aquilo que falta”, “se comprar mais esta peça de roupa aí sim vou sentir-me bem comigo mesma”, “se atingir aquele objectivo vou ser finalmente feliz”. Este constante fazer fazer fazer.

Mas se observarmos a natureza, ela não faz, ela deixa acontecer. Ela está, ela é. Ela não acelera processos, nem foge deles. Ela é pura aceitação daquilo que existe. Nós vivemos exactamente ao contrário, apressados, stressados, a fugir e focados no resultado. Constantemente à procura de controlar a realidade e a nossa própria natureza.

O Crítico Interior e a falta de Amor-próprio

Mas muitas vezes as coisas não correm como previsto, ou como tínhamos imaginado ou sonhado, e aquelas frases “fazes sempre tudo mal”, “estou estragado”, “sou uma miséria” começam a surgir. Verdadeiras cabras e cabrões internos, que apenas revelam uma grande falta de amor e compaixão interna. É um amor condicionado, que só ama dependendo dos resultados. Que só dá valor dependendo da projecção.

“Aqueles que têm um forte sentido de amor e pertença, têm a coragem de ser imperfeitos”

Brene Brown

A verdade é que somos todos iguais no sentir, mas são poucos os que ousam ter a coragem de expressar a sua voz, a sua arte. Vive-se como carneirinhos segundo formulas pré-vividas. E aqueles que ousam pisar o risco, assumir a vulnerabilidade de expressar quem são, rapidamente são assaltados pelos juízos críticos de quem ficou na zona de conforto (leia-se controlo).

A Voz da Alma

A voz da alma é aquela parte de nós que aceita tudo tal e qual como é. Aquela parte que sente verdadeira compaixão pela humanidade. Aquela que sabe que a vida é profunda e com muitos tons de cinzento. Aquela que procura a transcendência das coisas. Aquela que dá espaço para que a vida aconteça. Aquela que aceita a realidade, que sabe que a vida é feita de ciclos, momentos, incertezas e mudanças. Aquela que sente o medo, a insegurança e a vulnerabilidade, e mesmo assim atravessa a ponte. Pois sabe que a sua missão é cumprir-se, fazer a semente desabrochar. É a cumplicidade da profundidade de um olhar.

O corpo – alma

O caminho para a re-conexão da alma é através do corpo, através das emoções, das sensações e dos sentimentos. Pois este maravilhoso sistema criado pela natureza, é aquela parte de nós que está mais próxima da essência.

Faz da tua consciência emocional uma prática diária. Sente. Observa esses movimentos internos constantes sem a intervenção do juízo. Sê verdadeiramente honesto com o sentes. Observa e aceita a tua contrariedade, o teu paradoxo, sem escolher lados. Observa como a tua mente foge ao que sentes e cria estórias fantásticas para te distrair. Volta a sentir. 🖤

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