Bypass Espiritual – A espiritualidade como um mecanismo de defesa.

Quando comecei a praticar yoga e meditação, pouco, ou nada, se falava dessas práticas, e a espiritualidade era algo associado à igreja e à religião. Passados mais de 16 anos muita coisa mudou. Existem aulas, escolas, cursos, métodos e terapias ao virar de cada esquina, e a espiritualidade dita New Age está moda. Mas o que acontece quando utilizamos a espiritualidade, e todas as ferramentas e técnicas da New Age como um mecanismo de defesa, ou Bypass Espiritual, e não como a ferramenta de expansão da consciência e transcendência que elas são?

O que é um mecanismo de defesa?

O conceito de mecanismo de defesa do ego, vem da psicanálise, e na sua forma simplificada, refere-se às estruturas psíquicas que desenvolvemos para lidar com a angústia enquanto crianças. Essas estruturas são o que formam a nossa personalidade, mas não somos nós em essência.

Se olhar-mos honestamente para as nossas vidas, e nos perguntar-mos como lidamos com a angústia, vamos chegar à conclusão que quando nos sentimos desconfortáveis internamente, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para que esse desconforto desapareça. Acredito que muito do alimento da “máquina consumista” que está a destruir o planeta, venha da nossa incapacidade para conter o nosso desconforto interno.

Usar a espiritualidade como mecanismo de defesa.

Usar a espiritualidade como um mecanismo de defesa, é usar a espiritualidade para fugir àquilo que se sente. Quando perguntava aos meu alunos de yoga o que os tinha trazido até ali, a maior parte respondia que a sua maior motivação era a procura de bem-estar psicológico e emocional, e esta era a principal razão também, porque muitos não aguentavam mais de 3 meses. E isto acontecia porque, apesar do yoga e a meditação trazerem relaxamento e bem-estar, na sua essência, trazem mais consciência para as nossas vidas.

“Iluminação não é mudar para algo melhor ou maior, mas sim o simples reconhecimento de quem nós verdadeiramente somos.”

J. B. Cisneros

Se dentro de nós existe dor, zanga, tristeza, frustração, então é isso que o yoga e a meditação vão trazer. E por isso se o objectivo é fugir ao que se sente, então a prática de yoga e meditação, não são o melhor caminho a percorrer. Há uma diferença enorme entre focar-mo-nos em algo positivo para manter o foco positivo, e focarmo-nos em algo positivo para tentar escapar ou ignorar algo negativo. Conheço muitas pessoas que são contra a medicação para lidar com os problemas, mas utilizam as ferramentas e terapias alternativas exactamente com o mesmo mindset de fuga ao que existe.

A máscara do guru.

Todos nós temos uma ideia pré-concebida de como deve comportar-se uma pessoa zen, um yogi ou um iluminado, e quando começamos o nosso sadhana, ou prática espiritual, é extremamente tentador vestir essa fantasia. Mas essa máscara é apenas o ego a entrar pela porta dos fundos, e a boicotar o processo de iluminação. A ideia é sermos cada vez mais sinceros e honestos sobre quem nós somos, despindo-nos de máscaras e conceitos que não nos pertencem, e vestir a pele do guru é uma armadilha que põe em causa a verdadeira evolução pessoal.

Lembro-me de uma vez estar a beber uma cerveja e ouvir o seguinte comentário: “Raquel, estás a beber cerveja? Mas tu és professora de yoga!” Sim, sou praticante e professora de yoga, mas antes disso sou a Raquel que gosta de beber uma cerveja na esplanada com os amigos numa linda tarde de sol.

Aqui a questão é qual a intenção por detrás das minhas escolhas e opções, eu até posso não beber uma cerveja, porque sei que isso vai ter consequências no meu estado de vigília, na minha energia e no meu corpo, e por isso prefiro não consumir cerveja. Outra coisa é não consumir cerveja porque não é suposto um professor de yoga consumir cerveja, ou achar que por não consumir cerveja e ser praticante de yoga, estou “acima dos restantes mortais”.

A ilusão da perfeição.

Mais comum é a ideia de que um ser evoluído e/ou iluminado não sente zanga, tristeza, raiva e não tem dias maus. Isto não podia estar mais longe da verdade. Ser consciente, ser iluminado é aceitar o momento presente, é aceitar aquilo que existe, e na vida há muita coisa que nos causa dor, frustração e tristeza.

Quantas vezes no teu dia sentes desconforto e queres fugir dele? Para encontrarmos paz interior temos de deixar de lutar contra nós próprios, e para que tal aconteça temos de começar por fazer as pazes com as nossas emoções, sentimentos e sensações.

O problema das expectativas.

O bypass espiritual acontece quando usamos a prática espiritual para deixar de sentir o que não queremos sentir, ou que achamos que não deveríamos sentir. Temos a expectativa de que estas práticas nos vão libertar do caos interno que somos, numa fantasia ilusória de que a vida será perfeita, e dias maus e sentimentos negativos nunca mais irão surgir. É importante relembrar que a prática espiritual, e o crescimento e desenvolvimento pessoal, não se tratam de estarmos num estado permanente de bem-estar, mas sim estarmos no momento presente com aquilo que existe, e sermos capazes de nos transcendermos.

Como te sentes? Consegues estar presente com todos os teus sentimentos, emoções e sensações? Podes ser uma pessoa espiritual e assumir a tua sombra?  Ser uma pessoa espiritual e ter um mau dia?

O importante aqui é a tomada de consciência, o reconhecer que se não estivermos bem atentos e presentes, os nossos padrões mentais e feridas egóicas, podem induzir-nos a usar estas práticas de modo a suprimir as nossas emoções e a criar novas personagens. 🖤

 

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