O despertar da consciência e a dor.

Hoje em dia fala-se muito no despertar da consciência, e são várias as ferramentas que a era New Age nos oferece para trilhar o caminho. Desde o yoga, ao reiki e toda uma panóplia de técnicas de manejo da energia e terapias, aos anjos e cristais. Mas aquilo que não se fala, são das dores do parto do nascimento desta nova consciência.

O despertar de consciência é algo complexo e que na maioria das vezes envolve dor, pois ser consciente é no mínimo, saber que cada uma das nossas acções desencadeia reacções. Ora vejamos, cada vez que eu como, seja carne, peixe ou vegetais, está implicada a morte de um ser vivo. Cada vez que abro um pacote de pasta de dentes ou de shampoo, ou de algum cosmético, estou a criar mais lixo para o planeta. Cada vez que compro uma peça de roupa nova, estou a contribuir para uma das industrias que mais poluição faz e está a destruir a camada de ozono, já para não falar da mão de obra escrava que está por detrás da maior parte das marcas de roupa que usamos no dia-a-dia. E a lista continua…Ser consciente disto tudo traz-me dor, não felicidade…

Para além destas questões práticas do dia a dia, o despertar da consciência traz o reconhecimento do estado de loucura em que se encontra a nossa sociedade. Quando paramos para nos perguntarmos sobre “quem sou eu?”, “o que faço aqui?”, “qual o sentido ou propósito da vida?”, e procuramos as respostas na sociedade, entramos em desespero. A sociedade em que vivemos não dá qualquer tipo de resposta satisfatória a questões existenciais, já para não mencionar que vivemos num mundo extremamente desigual a nível sócio económico, e que põe em causa o valor humano das pessoas…e isto tudo traz-me dor, não felicidade…

Mas o mais complexo ainda está para vir, pois o verdadeiro despertar da consciência, passa pelo reconhecimento da complexidade interna que somos. Pelo resgate da sombra e pela maturidade do ego. E a complexidade é tanta, que às vezes parece que estamos a enlouquecer.

Comecemos pela sombra. Sem irmos ao lodo, a flor de lotus não nasce. Temos de reconhecer que há partes de nós que estão reprimidas no nosso inconsciente e que as precisamos resgatar para termos consciência e viver-mos como os seres inteiros e completos que somos. Na sombra estão aquelas partes que julgamos como más e não aceitáveis, e que por norma, projectamos nos outros. Mas na sombra também há muita luz. Devido à formatação do pensamento da matriz actual da sociedade, muitos dos nossos talentos acabam por ser também reprimidos, pois saem do padrão “normal” ditado pela sociedade, e enquanto crianças que desejam ser amadas, resta-nos a repressão como modo de sobrevivência.

Por outro lado temos o Eu, o ego, que tem sido tão demonizado nesta Nova Era.  Na minha concepção não é possível eliminar o Ego, até porque o ego não é o mau da fita, o ego na verdade é fundamental e desejável para que possamos viver em sociedade. O problema são os egos imaturos, que por serem imaturos, inflamam, têm necessidade de atenção e de poder. E se formos avaliar bem a situação, somos uma sociedade feita por egos imaturos. Aquilo que se deseja com o despertar da consciência é na verdade a transcendência do ego, o reconhecimento de que há mais qualquer coisa além do ego. No entanto, a verdadeira transcendência do ego só é possível num ego maduro. Qualquer tentativa de transcender um ego imaturo será pura ilusão, pois como uma criança pequena, só deseja atenção e amor, e não terá a capacidade de reconhecer que o amor que tanto procura externamente, na verdade nasce dele próprio.

É por isto tudo, que o despertar da consciência é um trabalho que tem de ser levado diariamente, e muito a sério, com pureza na acção e intenção. É uma jornada para a vida, que depois de se começar não há como voltar atrás. É por isso também, que é um processo complexo e que envolve o encontro com a dor, pois descemos às catacumbas da sombra e às raízes que formam o ego. O reconhecimento que andamos mergulhados no lodo é difícil de digerir. Mas quem já está na jornada, sabe bem que não há retorno, pois a cada espiral que avançamos sentimo-nos mais próximos de casa, sentido cada vez mais o calor do fogo que emana do nosso coração. Quanto à dor, essa nunca deixará de existir, pois faz parte das ondas da vida, o que há é alquimia, onde com o tempo aprendemos a ser magos e meigas das nossas vidas, a transformar o chumbo em ouro, a dor em aprendizagem e crescimento. ❤

1 Comment
  • happiness essay examples Posted Dezembro 22, 2018 1:44 am

    I could not refrain from commenting. Perfectly written!

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